Tal como
Tal como às vezes entramos num quarto, sem saber porquê,
e depois temos de voltar atrás seguindo o rasto da nossa intenção,
tal como conseguimos tirar uma coisa do armário sem tactear
e só depois de a agarrarmos ficamos a saber o que é,
tal como pegamos num embrulho para o levarmos a algum lado
e, ao sairmos, pensamos sempre com um susto
que somos leves de mais, tal como, enquanto esperamos,
nos apaixonamos uns minutos loucamente por uma cara nova,
mas somos afinal nós quem mais espera,
tal como sabemos: este lugar lembra-nos algo mas não sabemos o quê,
e nos ocorre um cheiro qualquer, em forma de recordação,
tal como sabemos de quem devemos desconfiar
e em quem podemos confiar, com quem nos podemos deitar,
é assim, acho, como os animais pensam, conhecem o caminho.
* Judith Herzberg, O que resta do dia,
p.163, Cavalo de Ferro
















